Casal Love Patrícia e Francisco

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Foto: Bruna Lima

Foto: Bruna Lima

Era 2002. Aos 10 anos, Patrícia Sanae Hayashi Andreata era uma garota tímida e estudava no colégio Fundação Bradesco. Era a época do MSN. “Naquela época, a gente adicionava todo mundo. Amigo de amigo, conhecido”, diz ela. “Nós éramos amigos de msn”, diz Francisco Antonio de Oliveira Neto. Por muito tempo, as conversas entre os dois se resumiram a “oi, tudo bem?”.

Era novembro de 2009. Por um motivo que ambos desconhecem, voltaram a se falar. O “oi, tudo bem?” se transformou em “o que está fazendo da sua vida?”, “onde você mora?”, “vamos nos ver amanhã?”.

Era véspera de natal. Patrícia tinha acabado de voltar da praia. Entrou no msn, conversou com Francisco, o chamou para visitá-la. Em dez minutos, ele estava no portão da sua casa.O pai dela percebeu a sua ansiedade e perguntou se ela ia namorar com aquele menino. Antes de abrir a porta de casa, ela disse “não, que é isso, ele é só meu amigo”. “Quando eu vi ele no portão, pensei ‘meu deus’ e já fui nervosa, passando mal.” Eles conversaram por horas. Na hora de se despedir, ele a beijou. Ela pensou “agora já era” e, quando entrou em casa, suspirou “é, pai, sei lá, viu”. Quando chegou em casa, Francisco disse pra sua mãe: “ela é bonitona. É menina de andar de mão dada no shopping”. A mãe respondeu: “meu sonho é ter uma nora japonesa”.

No dia seguinte, ele a buscou no trabalho. No outro, saíram juntos. Também se viram no outro dia e no outro. Conheceram as famílias. Compraram um carro. Viajaram. Passearam por toda a cidade. Foram a bares, lanchonetes, baladas. Passavam a tarde toda juntos, no parque Villa Lobos, na Praça Pôr do Sol ou no Pico do Jaraguá.

Era março de 2012. Ele estava pintando o carro com uma lata de spray. De 2004 a 2008, tinha sido pichador, mas era uma vida passada. Sua mãe e a namorada desaprovavam aquele comportamento. Mas, por algum motivo, guardou a lata no carro, antes de ir passear com a namorada. Na volta, pichou “love” no muro. É o apelido carinhoso dos dois, mas ela não gostou. “Que letra feia, não dá pra entender nada!” Quando entraram em casa, ele a pediu em casamento. No dia seguinte, pichou outro, em um poste, mas dessa vez com uma tipografia normal e um coração vermelho, meio batatudo. Dessa vez, teve a aprovação dela.

A história de Francisco Antonio de Oliveira Neto, 24 anos, designer digital, e Patrícia Sanae Hayashi Andreata, 21 anos, analista de sistema, poderia ser uma história comum de amor, se não fosse a forma como eles encontraram de se declarar um para o outro.

O sinal foi sendo aprimorado. Em todos seus passeios, marcavam um muro com um “love”. Sempre em uma parede já pichada, suja e sem vida. Mantiveram o anonimato, como todo pichador. Francisco aprendeu a fazer o sombreamento dos desenhos e o coração batatudo se alongou. Foi repetido pelos muros até virar uma marca, um símbolo da cidade.

Ouviam comentários. Uns diziam que era um partido político. Outros, propaganda de uma marca. Só a mãe e um amigo de Francisco sabia da história. Até que a universidade na qual Franscisco estudava perguntou em sua página do Facebook quem era o autor dos dizeres. Um amigo do Francisco, ligou desesperado para ele: “A Unifieo quer saber quem faz o ‘love’, cara”. “Ferrou.” Já havia 26 comentários. Patrícia e Francisco ficaram assustados. Só que, ao invés dos xingamentos que esperavam encontrar, tinha muita gente curiosa. E quase cinco pessoas assumindo a autoria do desenho. “Ó as ideia, Rambo. Tem gente mentindo no face”, disse Francisco para seu amigo.

Foi quando criaram uma página e um perfil, “Joãozinho e Mariazinha”, para assumir a autoria. O perfil fez sucesso, assim como a conta no Instagram.  Sem as redes sociais, o Love provavelmente não teria alcançado tanta gente. Hoje, são 3.649 amigos do perfil “João Maria” no Facebook, 3.362 curtidas na página S2_love e 2.726 no Instagram. Diariamente, postam frases românticas com filtros coloridos nas redes sociais. E, mais de uma vez por dia, postam fotos com os últimos pichos. Já são mais de 2.500 pichações, quase cinco por dia. Não apenas em Osasco e São Paulo, mas também em Londrina e na Praia Grande, destinos de viagens recentes do casal. Cada lata preta custa R$10 e, com ela, é possível escrever “Love” 25 vezes. Assim, calculam já ter gastado mais de mil reais com tintas.

Com tantos seguidores, perceberam que o projeto não era mais só pessoal e que a responsabilidade era bem maior. Ambos tiveram que aprender a lidar com esse público. Quando leu alguns comentários negativos sobre uma intervenção em um ônibus (“ônibus é patrimônio público, é poluição visual e depois alguém vai ter que limpar”), Francisco perdeu a linha. “Vai se ferrar”, gritou no intragram, “tô nem aí, tio, alguém que limpe depois”. Patrícia o interpelou e argumentou que não poderiam reagir dessa forma.

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Involuntariamente, serviram de inspiração para outros. Crianças e adolescentes decoram as paredes dos banheiros escolares e outros pichadores preenchem uma parede branca com imitações mal feitas. Uma menina foi flagrada pintando o banco do ônibus de branquinho. O casal já passou por alguns apertos. Foram enquadrados cinco vezes pela polícia e já foram xingados pelos donos dos muros. Quando explicam o projeto e o que significa, a maioria se acalma e os deixa ir. Francisco se diverte imitando a voz de uma senhora que brigou com eles até ser convencida: “é, fica mais colorido assim”.

O projeto se tornou algo muito maior do que os desenhos pelos muros. Fizeram camisetas, bonés, adesivos, canecas. Já lançaram até uma linha de tênis com a marca Rainha. Com a verba das vendas, conseguem comprar mais latas de tinta e de spray. Planejam tornar o símbolo uma marca registrada. 

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O projeto leva o nome do casal (“Casal Love”), que não se desgruda. Ela o acompanha até em cervejadas com os amigos. Do lado de fora da faculdade, ela passava cola para as provas finais dele. Ambos falam na primeira pessoa do plural. No entanto, em um primeiro momento, o projeto parece pertencer mais a Francisco, apelidado de “Tiquinho” pelos amigos. Afinal, é ele quem faz os desenhos, formado em artes visuais. É ele quem a chama de “Love” ou “Lo”, apelido que deu origem à homenagem nos muros. Ela o chama de “Vida”.

Apenas parece. Formada em comunicação, Patrícia ajudou a expandir o projeto. Gerencia as contas das redes sociais e responde pelo e-mail do casal. E foi ela que teve a ideia de espalhar o amor de outras maneiras. Alguns meses depois do primeiro picho, Patrícia sugeriu: “não adianta só a gente falar de amor. Temos também que fazer alguma coisa”. Assim, os dois fizeram diversas campanhas de doação, mobilizando seus milhares de seguidores. Eles ofereceram roupas, comida e até móveis. “Teve um cara que quis doar uma cama!”, diz Francisco.

No inverno, arrecadaram agasalhos para moradores de rua. Ela celebra: “conseguimos ajudar muita gente, umas 30, 40 pessoas!”. Já foram quatro: roupas e cobertas para moradores de rua, cestas de Natal e brinquedos no Dia das Crianças.

Nos fins de semana, vão a comunidades carentes. Enquanto Francisco pinta a parede de algumas casas, Patrícia brinca com as crianças e conversa com os moradores. Para as festas de fim de ano, montaram um kit para moradores de rua, com pratos típicos e uma champanhe. Alguns amigos ficaram indignados: “vocês estão incentivando o alcoolismo dessa forma”. Responderam: “não é uma garrafa que vai fazer diferença. Se você pode estourar uma champanhe na sua casa no ano novo, por que eles não podem?”.

O amor e as pichações do casal Love chegaram até a mídia. Foram assunto de um documentário, trabalho de conclusão de curso, de matérias impressas e televisivas. Patrícia sempre dá um berro de alegria quando uma pichação aparece ao fundo de uma novela ou notícia. Têm o tempo escasso: ele trabalha de madrugada em uma gráfica e ela é analista de sistemas durante o dia. Só têm o fim de semana para espalhar os desenhos, ajudar as pessoas, visitar comunidades carentes, pais e sogros. Mas não negam entrevistas, visitas e ajuda.

O “Love” mudou a vida dos dois. “Acho que a gente é mais feliz, né, Lo”, pergunta Francisco. E completa: “é uma coisa que a gente vai contar pros nossos netos.”

“Acho que as pessoas gostam porque ‘love’, amor, significa uma coisa para cada um”, diz Francisco. Para eles, amor é respeito, sinceridade e felicidade. Mas, para cada outro casal da cidade, é uma coisa diferente. “Todo mundo vai lembrar de um namorado, marido, amigo quando vir nossa pichação.”

Foto: Talita Amaral

Foto: Talita Amaral

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