Mirthes Bernardes

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– Eu tenho esse direito.

É Mirthes Bernardes, que repetiu esse mantra nas últimas décadas, querendo ter seu direito, reconhecimento e nome sobre as calçadas de São Paulo que todos pisam todos os dias. Há quarenta anos ela desenhou esse padrão geométrico de zigue-zague que passa por todas as ruas e lojas e centros e restaurantes e por todas as sacolas, chinelos e cartões de visita, tão paulistano quanto ela que nem nasceu nessa cidade.

As calçadas brancas e pretas e pretas e brancas que se repetem até o infinito da próxima esquina saíram de sua cabeça, de sua mesa e de sua gaveta e passaram por todas as poesias de nossas esquinas duras e quadradas e de concreto. Ela diz com humildade que não se importa, que não quer saber do dinheiro e que fica feliz que outros usem seu desenho, mas também fica brava com as sobrancelhas pra baixo, resmungando e diz que a prefeitura deve estar ganhando dinheiro às suas custas, não é possível, ela tem é certeza de que alguém está ganhando às suas custas.

Sua casa é repleta de quadros, desenhos de árvores, flores, meninas, mulheres, saias, cenas religiosas e folhas. Por todos os lados, há fotografias, bordados, painéis. O ateliê é desorganizado e cheio de placas e regido por uma ordem invisível que deixa todas as cores no lugar. Na estante, centenas de potes plásticos, coloridos, etiquetados e empilhados, um arco íris guardado em caixinhas e potinhos transparentes para ser usado. Os instrumentos, lápis, estilete, tesoura e palitos, estão sob a mesa, à direita. À esquerda, estão três fornos, dois deles importados da França e outro foi adaptado de um forno maior; apesar de ser o mais velho, é com ele que a artista se dá melhor.

Sua especialidade são as placas de cobre e esmalte. Os painéis recebem camadas de esmalte em pó, que é derretido em um dos três fornos a quase 800°C. Em nenhum lugar, há sinal do “maledeto”, como Mirthes Bernardes, 79 anos, chama essas calçadas ruins, óbvias, que arruínam seu humor toda vez que alguém os menciona. “Eu tenho esse direito”, ela repete, mais uma vez, convencida.

Seu ateliê, no Brooklin (Foto: Karin Salomão)

Seu ateliê, no Brooklin (Foto: Karin Salomão)

A arte fria, em preto e branco e geométrica

Apenas uma pasta guarda a história das calçadas mais famosas da cidade. Mirthes retira uma folha do Diário da Noite, de 1971. A manchete, “E. S. Paulo se faz mais bela”, conta a história do concurso cultural que acontecera cinco anos antes. Na época, ela ainda usava o nome Mirthes S. Pinto.

O prefeito Faria Lima abriu um concurso para eleger o padrão das calçadas da cidade. Todos os desenhos foram encaminhados para a Secretaria de Obras, onde Mirthes era desenhista. Era o seu trabalho copiar os projetos para folhas de papel vegetal. Nas folgas, rabiscava outros desenhos e rascunhou um padrão simples. “Achava aquele desenho tão cafona. É muito lógico, óbvio. É só o contorno estilizado do mapa do estado.”

Seu chefe, Luis Gomes Cardim Sangirard, pediu uma borracha ao passar por sua mesa-prancheta. Ela abriu a gaveta e lá estava o rascunho. “Ah, que lindo! Passa para o vegetal!”, disse ele. Meio à contragosto, Mirthes se convenceu e inscreveu o rascunho. Ficou entre as quatro finalistas. Ela não acreditava.

Para escolher o vencedor, os quatro desenhos foram aplicados em ladrilhos em trechos da Av. Consolação. A votação seria popular. No dia da votação, Mirhtes foi até a avenida e observou de longe, sem se identificar. “Fiquei em um canto, só olhando. Nem me identifiquei nem nada. Morria de vergonha. Hoje não, hoje sou mais atirada”, ri ela, que hoje usa o nome artístico Mirthes Bernardes.

Uma das homenagens que recebeu, em 1972 (Foto: Karin Salomão)

Uma das homenagens que recebeu, em 1972 (Foto: Karin Salomão)

Ela se recorda que havia um desenho maravilhoso de grãos de café; para ela, aquele era o símbolo da cidade. Outro finalista era um desenho de pés caminhando. Um dia, saiu uma grande reportagem na Folha de S. Paulo que a anunciava como vencedora do concurso.  “Foi uma festa com meus colegas. Concorri e trabalhava com arquitetos. Foi muito legal, fiquei feliz”, diz.

A calçada foi implementada primeiro na Av. Faria Lima. Depois na Av. Amaral Gurgel. E na esquina emblemática da Av. Ipiranga com a Av. São João. A frente do Bar Brahma ainda conserva as lajotas. Porém, o concurso não tinha nenhuma contrapartida financeira.

Ponto de ônibus na Av. Rebouças

Ponto de ônibus na Av. Rebouças (Foto: Karin Salomão)

Mirthes não foi atrás de seus direitos autorais e da patente do padrão que criara logo depois do resultado. Na época, era estudante de serviço social na PUC e, por isso, não tinha condições de entrar com um grande processo. “Precisava pagar a faculdade e sustentar, ajudar em casa. Eu tinha um advogado, mas vieram custos que eu não podia pagar.” Nos primeiros anos, desistiu do processo. Mas logo que se formou retomou as brigas. Por anos, pagou advogados para tentar garantir os direitos autorais. Tudo em vão.

Não só perdeu o caso – e acabou desistindo de brigar – como também perdeu diversos documentos. Com o passar dos anos, a pasta foi se esvaziando. Já não tem mais o seu desenho original. Nem a reportagem  da Folha de S. Paulo, que anunciou sua vitória. Nem a menção honrosa no Diário Oficial dada pelo prefeito. Ainda guarda a patente e os direitos autorais. Mas muitas reportagens, fotografias, recordações ficaram com eles. 

Ainda sobram algumas reportagens. Da Veja, da Época,  Folha. Seus amigos continuam enviando reportagens, objetos e aparições esporádicas do símbolo. Para ela, o lugar mais inusitado foi em um biquíni e em chinelos Havaiana. Mirthes não se importa que usem o seu padrão em restaurantes, logos, cartões de visita, guardanapos, jogos americanos, brindes de empresa, sacolas. É seu e é público. É uma homenagem a São Paulo e a ela.

Apesar disso, não usa nem um único objeto desses. A cozinha é branca, a sala colorida, o corredor tem diversas árvores de cobre. A única aparição do “maledeto” é uma placa de acrílico, que a homenageia. É da escola de samba Mocidade Alegre, que inspirou sua apresentação nas calçadas paulistas em 2007. Até as roupas alegóricas traziam o motivo. Mirthes não viu o desfile, porque estava cuidando da família. Mas 30 de seus amigos foram e ela guarda fotografias dos figurinos.

Mirthes e o figurino da escola de samba Mocidade Alegre (Foto: Karin Salomão)

Mirthes e o figurino da escola de samba Mocidade Alegre (Foto: Karin Salomão)

Também está certa de que a prefeitura deve estar recebendo pelos seus direitos autorais. Reclama da burocracia, dos advogados, da corrupção. Fala como se bolasse uma teoria da conspiração, irritada. Como se lhe tivessem passado a perna. Seu humor muda radicalmente quando volta a contar dos seus quadros de cobre.  

A arte quente, colorida e cheia de curvas

A arte com cobre e esmalte foi aprendida de sua irmã e do sobrinho, há mais de 40 anos. Os dois pesquisaram durante muitos anos técnicas e formas, no Brasil, Chile e na França. Mas Mirthes gosta de “fazer à sua moda”, diz, rindo. Errou por muito tempo, gastou muito esmalte caro, que era de sua irmã. Por causa disso, a irmã acabou desistindo e cedeu tudo para Mirthes.

Os pigmentos não se misturam. Para conseguir o efeito de degradê, presente no pôr do sol, nas folhas e em barras de saias, Mirthes estudou por muito tempo. São muitas camadas de pó sobre a placa, que vai ao forno diversas vezes. O primeiro pigmento sobe, cobrindo os superiores.

Sempre usou a arte como forma de engajamento e recuperação social. Depois de se formar, em 1969, foi trabalhar como assistente social em Ilha Solteira, em Mato Grosso. Estava sendo construído o Complexo de Urubupungá, formado pelas usinas de Jupiá, Ilha Solteira e Três Irmãos. O trabalho de Mirthes era junto aos operários. Foi uma das primeiras moradoras da cidade. “Primeira casinha foi nossa, ali no meio do barro. Foi muito gostoso.” Coordenava um grupo de arte e música, com violão, piano e até sanfona.

Voltou a São Paulo e trabalhou na Secretaria do Bem Estar Social, na Secretaria de Cultura do Estado, na Fundação Casa, então Febem, e em outros presídios. Em todos os lugares, espalhava a arte. “Tudo eu dirigia para a arte. Acho que a arte é o que mais recupera, o que mais mexe com a sensibilidade.”

Ela era muito ligada à sua mãe e sempre esteve cercada pela família grande. Seus irmãos, Norma, Celinha, Maria Inês e Caio Flávio, todos fizeram faculdade. O pai, dentista, também era artista. Além de próteses dentárias, criava broches e outras bijuterias. A mãe faleceu aos 102 anos. “A gente tinha uma coisa muito forte. Ela era uma graça, a nossa vida era muito gostosa. Era muito difícil trocar isso.”

Era muito namoradeira, mas nunca pensou em se casar. Hoje mora com a irmã, Maria Inês, que cursou astronomia, direito e serviço social. Até hoje conserva sua personalidade forte, independente. Viveu no meio de artistas, políticos – seu pai era amigo íntimo de Jânio Quadros – atores e músicos. Frequentou teatros e galerias de arte pelo mundo.

"A última ceia": painel de cobre e esmalte retratando meninos de rua e distribuição de pão (Foto: Karin Salomão)

“A última ceia”: painel de cobre e esmalte retratando meninos de rua e distribuição de pão (Foto: Karin Salomão)

A autora das duras calçadas da metrópole é alucinada por árvores. Nasceu em Barretos, morou em Piracaia e na Rua Joaquim Floriano. Já em São Paulo, o quintal da casa dos pais tinha pereiras, ameixeira, laranjeiras, limoeiros, cerejeiras, pé de café e romã. Estudava lá no alto. Comia frutas do pé. Balançava em seus galhos.

Alguns dos quadros de árvores nas paredes de sua casa (Foto: Karin Salomã0)

Alguns dos quadros de árvores nas paredes de sua casa (Foto: Karin Salomão)

Quando se mudou para o Brooklin, trouxe consigo alguns pés. No entanto, por causa das enchentes e dos mosquitos, cimentou parte do jardim. Hoje, sobraram apenas as roseiras de sua mãe. As árvores ainda são sua temática favorita.

No decorrer dos anos, as paredes de seu ateliê foram se cobrindo de obras coloridas. Os quadros também estão expostos em museus e galerias no Chile, Japão, Suécia, Suíça. Enviou painéis para a Bienal do Chile, duas vezes, e em bienais na Espanha, França e Georgia do Sul. Faz diversas exposições individuais e com outros esmaltadores e vende quase todas as obras.

Aos 79 anos, não se sente sozinha. Às quintas-feiras recebe a visita de um grupo de esmaltadores e, às segundas-feiras, ela e o sobrinho oferecem um curso para novos artistas. Continua criando, produzindo e expondo. Cada painel não vale menos de 7 mil reais. É essa arte que lhe dá gosto, alegria e fama.

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