Adão Pereira dos Anjos

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Ele tem um aperto de mão suave e calejado. Chega reclamando das formigas. Briga com esse exército subterrâneo a se apoderar das diversas praças de São Paulo. Espalha veneno e conta orgulhoso das batalhas vencidas contra elas. Mas elas sempre voltam. Ah, as formigas sempre voltam.

Adão Pereira dos Anjos, funcionário da subprefeitura de Pinheiros, protege os pontos verdes desse canto da cidade. Faz vistoria em toda a Zona Oeste. Quando vê um lixo quebrado, um banco torto ou uma área pisoteada, entra em contato com uma equipe para restaurar o local. A Praça Benedito Calixto, por exemplo, precisa ser replantada todo ano. “Como tem feira, as pessoas acabam pisando. O povo tem que amar mais o trabalho, a planta, a muda. Se todo mundo respeitasse o trabalho do outro a cidade seria bem melhor”.

Adão Pereira dos Anjos na Praça Pôr do Sol (Foto: Karin Salomão)

Adão Pereira dos Anjos na Praça Pôr do Sol (Foto: Karin Salomão)

No seu trabalho, diz que não gosta de ser mandado. Com 57 anos, diz que a prefeitura já confia nele para avaliar o que precisa ser refeito ou replantado. “Gosto de ser livre como passarinho. Ninguém manda no meu trabalho”.

Ele acha um absurdo que as árvores em São Paulo não sejam frutíferas. “Já pensou, você está andando e pega uma manga do pé?”, diz ele. Mexerica, amora, ameixa, jaca, banana. “Ali tinha um pé de jabuticaba. Eu sempre pegava algumas.” Para ele, a cidade tem que ser comestível. As pessoas deveriam poder se alimentar nas ruas, de forma saudável, fresca, pegando frutas direto no pé.

Aprendeu os segredos das plantas quando era criança. Morava em uma fazenda em Água Vermelha, no interior de Minas Gerais, com seus pais e treze irmãos. Estudou até o primeiro grau. Como morava longe da cidade, os professores iam até sua casa.

Aprendeu mais com a natureza. Quase botânico, conhece as árvores pelo nome. “Aquela ali é a sibipiruna, com flores amarelinhas. E aquela é a tipuana. Os nomes científicos eu sou ruim de lembrar. Mas os nomes populares eu sei. Eucalipto, jatobá. Eu sei o nome das árvores porque a gente convive. Vai trabalhando, vai vivendo, convive”, diz ele, com a testa enrugada como um tronco, de pele curtida pelo sol.

Sua maior paixão, mesmo, são as frutas. “Eu amo todas as frutas. Eu gosto de comer uma mexerica, laranja. Gosto de comer pera. Não sou muito chegado em maçã, mas tem muita vitamina. Também mamão. Se eu pudesse, em casa só entrava fruta. Abacaxi, melão, melancia, banana.”

Comiam de tudo que a terra dava. Frutas, mandioca, feijão de corda, andu, feijão carioca, favas. Fala de um tempo de prosperidade, fartura e delícias. Diz que comia frutas do pé, um banquete a céu aberto. “Qualquer coisa que plantasse, dava”, diz, imitando Pero Vaz de Caminha.

Mas a verdade é que havia fome. Em alguns anos, a terra não os sustentava. Não chovia. Nada crescia. Desesperançado, ele veio para São Paulo, sozinho, em 1966, “para trabalhar e ganhar o pão de cada dia”.

“O Senhor foi me abençoando. Tudo o que eu faço dá”. Trabalhou como jardineiro e piscineiro. Porém quis um emprego que lhe garantisse aposentadoria e entrou no serviço público. Seu sorriso floresce: “escolhi a melhor parte, de conservação e de praças”. Hoje, ao invés de chinelos sujos de terra, usa tênis. Carrega uma pasta de plástico e canetas e carteira no bolso da camisa social listrada.

Comprou um terreno em Embú das Artes (“lá Deus já tinha preparado”), a uma distância de duas horas de ônibus. Quase arquiteto, tijolo por tijolo, ergueu seu próprio lar. Diz ele que as paredes brotaram em um único fim de semana. Mas até hoje ele e sua mulher constroem mais um canto, um quarto, uma janela. “Tem 20 anos e nada trincado”. Sua esposa plantou mais de 200 vasos. O concreto cobre quase todo o terreno e os vasos cobrem todo o concreto. Construiu até um jardim de inverno na laje, coberto, com dezenas de mudas.

Os frutos de sua mulher cresceram. São três filhos, grandes e fortes. Se esforça para presentear aos filhos o que seu pai não pôde dar: estudos. Sua filha Gabriela está terminando a faculdade, que ela mesma paga com um emprego na Nestlé. Guilherme é técnico em enfermagem. O terceiro, Gustavo, é metalúrgico em uma firma internacional. Diz para os filhos: “Pega o exemplo do seu pai. Seu pai é analfabeto. Nunca fui em escola, mas Deus ensinou respeito. Sempre honrei a palavra de Deus e a amar o próximo como a si mesmo.”

Ele se envergonha de sua dificuldade de fala e do pouco estudo. Gesticula pouco, engasga em algumas frases. Mas é jardineiro como Manoel de Barros, filósofo como Alberto Caeiro. Diz que o essencial é ter uma fruta para comer. Leite para tomar. Casa para morar.

Diz ser ungido de Deus, tanto pelo sucesso de sua vida quanto pelo de seus filhos. Além disso, vivenciou dois milagres. Quando criança, foi picado por uma cobra, mas não sofreu mal algum. Entre 1989 e 1991, foi atropelado. O carro, conta, ficou despedaçado. Sua única sequela foi um corte na orelha.

“O que atrapalha mais em casa é a enfermidade”. Ele desfia suas enfermidades em uma lista interminável: diabetes, pressão alta, colesterol alto… Sua esposa é mais frágil. Diz ele que toma onze remédios. “Ela fica em casa, triste, espremida. Meu filho leva ela para passear, às vezes.”

Apesar do nome de jardineiro por excelência, Adão Pereira se diz envergonhado com o seu nome. “Adão foi o primeiro homem, ele traiu a Deus. Tudo o que eu faço acho que estou fazendo errado”, diz ele, num riso forçado. Como que para balancear seu destino nominal, está todos os dias na igreja. Abre e fecha as portas do templo como se fosse Pedro, é generoso com o próximo e aconselha os outros. Não fala muito disso. “Para receber o galardão de Deus, tenho que fazer tudo no secreto”. “Tem que amar a todos. Minha esposa fala ‘você tem que amar só a mim’, mas não, tem que amar todos”.

Praça Pôr do Sol (Foto: Karin Salomão)

Praça Pôr do Sol (Foto: Karin Salomão)

Vista da Praça Pôr do Sol (Foto: Karin Salomão)

Vista da Praça Pôr do Sol (Foto: Karin Salomão)

Com os olhos apertados contra o sol, diz que “o melhor momento da minha vida é agora”. Com um emprego, casa e filhos, agora se preocupa com os outros e com o futuro do país. Do alto da Praça Pôr do Sol, olha para o horizonte, aperta seus olhos contra o sol e profetiza o futuro. “Imagina isso aqui cheio de pés de goiaba, até de jaca. Essa praça de 30 mil m² tinha que ter pelo menos 50 pés de laranja. Uns 10 pés de mexerica. Ou uns pés de jabuticaba, amora, pitanga. Nós deveríamos trazer os pássaros. Íamos dormir com os cantos dos pássaros. Ia renovar a cidade. Muitos pássaros morrem de fome, outros o povo prende.

Se cada um fizesse alguma coisa pelo bem, seria bom para a população. E para o povo que anda desabrigado, que dorme na praça, os andarilhos. Teria fruto para eles comerem. Eu tenho que pensar não só em mim. Posso estar bem hoje. E amanhã? Temos que pensar no futuro. Que vai começar. Que vai ser ainda.”

Vista da Praça das Corujas (Foto: Karin Salomão)

Vista da Praça das Corujas (Foto: Karin Salomão)

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