Lilian Schwed Razaboni

By

Quem diz que olhos claros são superficiais nunca fitou os olhos de Lilian. A pupila é preta, grande, magnética, que o puxa para dentro e carrega todos os sentimentos do mundo. Amor, compaixão, piedade, carinho, tristeza, desolação e alegria. Tudo imerso no imenso círculo negro. E os olhos são verdes, claros e calmos, que permitem a todos navegar por essas emoções. Apesar do turbilhão de sentimentos que a tomam, a viagem pelos seus olhos, coração e mente é calma, sem ventos contrários. Quem conversa com ela desliza calmamente pelos seus olhos profundos até o fundo de sua alma.

2014-05-08 12.04.28

Lilian Schwed Razaboni, de 53 anos, é enfermeira e coordenadora da equipe de captação do hemocentro da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo. Atrás de sua mesa bege, envia bolsas de sangue para uma rede de 15 hospitais. Manda cartas para doadores regulares, pede ajuda para familiares de pacientes internados, coordena campanhas de doação. Todo mês, arrecadam quatro mil bolsas.

Não é o suficiente. “Apenas 3% dos brasileiros doam sangue. Se 5% doassem, não faltaria nunca”, diz ela. Ela conta que ainda há muito medo da doação. Inclusive alguns mitos, como transmissão de doenças, fraqueza, entre outros. Outro empecilho são as políticas da empresa, que liberam um funcionário para doar sangue apenas uma vez por ano. “E nas férias, Natal, Carnaval, as pessoas querem viajar. Não vêm doar sangue. E a Copa? Vai ser muito feio. Teremos muitos problemas.”

Infelizmente, Lilian não pode doar sangue, por tomar remédio contra a hipertensão – um dos impeditivos para doação. Mas ela inventa outras formas de ajudar as pessoas, sempre com um coração muito grande. Certa vez, um email desesperado chegou na caixa de entrada do hemocentro. Era uma mãe, pedindo angustiada pela sua filha. “Me ajuda a salvar minha filinha que ela vai morrer”, dizia a carta, com toda agonia que uma tela de computador pode transmitir.

Lilian respondeu, perguntando o que poderia fazer. O email seguinte pediu, encarecidamente, por uma consulta com no ambulatório da Santa Casa. Ainda que não fosse sua responsabilidade, Lilian abriu uma ficha para a criança e conseguiu uma consulta para a semana seguinte. No terceiro email, a mãe disse que não morava em São Paulo, mas no interior da Bahia. Lilian ficou muito preocupada. “Estamos trazendo alguém da Bahia!”, disse ela. “E a responsabilidade? Onde ela vai ficar? Será que vi conseguir chegar? As passagens são caras!” Tudo isso a preocupava.

No dia anterior a consulta, ligou para a casa da mãe. Uma criança atendeu e disse que a mãe “tá pá Sum Paulo!”. Felizmente, deu tudo certo. Lilian conheceu mãe e bebê que, com os equipamentos e médicos da Santa Casa, foi diagnosticada com um tipo de anemia. Ela conseguiu realizar o tratamento na Bahia e passa bem.

Outra situação alegre foi quando fez as vezes de coelhinho da páscoa. Um doador regular de plaqueta resolveu presentear as crianças internadas com 20 ovos de chocolate. A caminho da pediatria, Lilian e outros enfermeiros passaram por um grupo de cadeirantes, que recebem tratamentos regulares e estavam esperando o transporte para retornar para casa. Rindo, os pacientes pediram o doce. Como os ovos já estavam reservados para a pediatria, a equipe se desculpou.

Porém, apenas 13 crianças estavam internadas naquele dia. Os ovos restantes eram do número exato dos cadeirantes. Mesmo adultos, eles se emocionaram com o presente. Bateram palmas, abraçaram, riram, choraram. Um senhor disse que nunca tivera um ovo de páscoa. Lilian ri sozinha lembrando da cena, o delineador gatinho, bem fino e preciso, se esconde nas rugas dos olhos, amassadas de riso e felicidade.

Todo esse carinho e cuidado pelos outros a tornaram querida no hospital. Quando seus filhos nasceram no Santa Isabel (hospital particular da Irmandade da Santa Casa), foram tantas visitas que formavam uma fila na porta da maternidade. Ela ri e conta que quase deu senha para organizar as visitas de todos seus amigos. Diz que ganhou tantos ursinhos e bichinhos de pelúcia que não cabiam no quarto. “Era a primeira vez que eu era paciente no hospital”, diz, rindo da experiência ao contrário.

No entanto, nem sempre Lilian consegue ajudar todos ao seu redor. Seus olhos se enchem de lágrima. O delineador e o rímel se esforçam para não borrar. Em poucos segundos, seu semblante se transforma, comovida com a lembrança. Um amigo ortopedista, que trabalhava em seu andar, faleceu de câncer. “É muito, muito triste”, diz ela.

Ainda mais triste é a história de um garotinho. Ele veio para uma cirurgia simples, de fimose. “Era uma criança muito linda, a cara do meu filho”, diz Lilian. Depois do procedimento, estava no quarto. Teve um choque térmico. Convulsionou. O cérebro recebeu pouco oxigênio. A criança linda e perfeitamente saudável saiu do hospital com severos danos cerebrais. “A gente se coloca no lugar da mãe, né. É tão triste….”, conta, quase perdendo a voz. “Mas a gente lida com a vida.”

“Ajudo muita gente. É a minha missão. Eu sou muito coração, sabe. Meu namorado até me deu um livro, ‘Cansei de ser boazinha’. Mas não dá.” Fora do hospital, também cuida de seu pai, praticamente cego e de sua mãe, com Alzheimer. De tanto ver casos tristes, de morte, dor e sofrimento, aprendeu a ser muito grata pela família, pela sua saúde e de seus três filhos.

Desde sempre quis ajudar os outros. Mas, ao prestar vestibular, ficou em dúvida sobre qual curso seguir. Como seu pai tinha uma farmácia e sua mãe trabalhava na área de produção farmacêutica, Lilian decidiu pela área da saúde. Durante uma semana, acompanhou o trabalho de uma freira enfermeira, a fim de conhecer o ofício melhor. Era isso mesmo que queria ser para o resto da vida.

A Santa Casa foi o seu primeiro emprego, há 34 anos. Jovem, não tinha noção das emoções que a aguardavam. “Entrei de branco, toda linda e maravilhosa”, Lilian ri da sua inocência de criança. Aprendeu cedo que as responsabilidades são muito grandes.

2014-05-08 12.11.06

Estava nos seus primeiros anos como residente da Santa Casa, no andar da ginecologia. Havia uma gestante que retornava com frequência ao hospital por causa de crises de pressão alta. Ela havia se separado recentemente do marido, namorado outro e engravidado. Separou-se de novo e voltou ao ex-marido, que estava irritado com a existência do bebê de outro. A gestante, Ednalva, contava isso para as enfermeiras. Estava assustada. Dizia a todos que, caso alguma coisa acontecesse com ela, Lilian deveria ficar com o bebê. Ela aceitou, confiante que nada aconteceria – a gestante tinha apenas pressão alta, sintoma bastante comum. “Era irreal demais, nada poderia acontecer”, diz Lilian.

Ednalva continuou retornando e repetindo que daria a guarda da criança a Lilian, já que seu marido não a queria criar. Lilian aceitou, novamente. Na madrugada escura em que daria a luz, Ednalva chamou Lilian e uma assistente social para formalizar a guarda. Entrou em trabalho de parto. Deu a luz a uma linda menina. Teve atonia uterina – depois do parto, o seu útero não regrediu como deveria. Sangrava muito. Teve insuficiência renal. Os médicos até tentaram retirar o útero, mas era tarde demais. Ednalva falecera, deixando uma criança recém-nascida nos braços de uma enfermeira solteira de 24 anos. “Aí a coisa ficou preta. Imagina. Fiz uma promessa no leito de morte. Tinha uma bebê no berçário e uma assistente social olhando para minha cara e perguntando ‘e agora?’”

A assistente social perguntou se o viúvo não gostaria de ficar com a menina. “Eu não, manda para a Febem”, disse ele. Lilian foi conversar com os pais. Porém, eles já tinham três filhos e mais uma criança adotiva, não podiam sustentar um quinto filho. Porém eles gerenciavam uma instituição para crianças adotivas, chamada Aldeias Infantis SOS, em São Bernardo. Crianças vivem em grupos de dez, criadas por uma mãe adotivas. Essas mães são voluntárias, normalmente mulheres mais velhas, ex-freiras ou pessoas que querem viver o prazer de ser mãe.

Lilian registrou e batizou Priscila com o sobrenome da mãe biológica. Logo na inscrição para a aldeia de São Bernardo, aconteceu um milagre, diz ela. A assistente se lembrou do nome de Ednalva. A mãe tinha se inscrito como voluntária para a aldeia. Quando desse a luz, era para lá que pretendia ir com sua filha. Essa coincidência aquece o coração de Lilian.

A aldeia também tem uma parceria com famílias estrangeiras – Priscila também foi “adotada” por uma madrinha alemã. Ao invés de apenas uma mãe, a criança cresceu com três. Lilian acompanhou e investiu em sua vida, com todo carinho. Estava lá nos fins de semana, levou-a para sua primeira viagem de avião para férias no Nordeste. Mais tarde, a ajudou com um curso de próteses, a comprar um carro e com seu primeiro imóvel. Priscila a chama de madrinha e é muito próxima da família adotiva, pouco mais velha que os filhos biológicos de Lilian.

“Hoje ela é uma mulher maravilhosa”, diz ela, com orgulho. “Tudo isso mudou o destino dela. Se tivesse ido para a Febem ou sei lá não seria essa pessoa linda que é hoje.” Priscila poderia não ter um curso superior, um carro e uma casa. Poderia não ter famílias que a amam. Mas Lilian estava lá. Cuidou dos pacientes, dos amigos, da Santa Casa. E a Santa Casa deu uma filha e uma família muito, muito grande.2014-05-08 12.12.03

Anúncios