Fábio Hamilton da Cruz

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Fábio Hamilton da Cruz, pouco antes do acidente na Arena Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal/Leandro Gonçalves)

Fábio Hamilton da Cruz, pouco antes do acidente na Arena Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal/Leandro Gonçalves)

“Ele dormia nesse sofá aí. Tinha cama, mas gostava mais do sofá. É difícil chegar em casa e não ver ele cochilando. É difícil não ouvir ele gritar ‘acordei!’ às quatro da manhã, não ouvir a música dele estrondando a casa de madrugada, enquanto ele se arrumava para ir trabalhar”, diz Sara Hamilton da Cruz sobre seu irmão, Fábio.

No dia 29 de março, Fábio também estava ouvindo música. Ele era fã de funk. Seu som saía do celular com força e preenchia o estádio do Corinthians, em Itaquera. Era assim que ele trabalhava, todo dia, erguendo as arquibancadas para os jogos da Copa do Mundo.

Todo dia mesmo. Há uma semana, seu chefe, Chicão, chamara todos os trabalhadores das arquibancadas do Itaquerão para uma reunião. Eles trabalhariam de segunda a segunda até terminar a construção e receberiam um bônus de três mil reais para isso.

Fábio, com apenas 23 anos, estava muito empolgado. Chegou em casa, naquela semana, contando tudo para a irmã: “neguinha, vou conseguir comprar meu carro!” Era o seu sonho. Mas sua empolgação foi diminuindo. Sara acalma dois cachorros, que latem sem parar, e continua contando a história dos últimos dias de vida do irmão.

Um dia, ele chegou assustado. Uma peça escorregou nas mãos de um funcionário e ele perdeu quatro dedos. Antes disso, em 27 de novembro do ano passado, três estruturas metálicas caíram causando a morte de Fábio Luiz Pereira, de 42 anos, e Ronaldo Oliveira dos Santos, de 44, também no estádio do Corinthians.

No país inteiro, até aquele momento, sete famílias perderam seus entes queridos na construção de estádios da Copa do Mundo. As fatalidades deixaram o Itaquerão em um clima pesado, de medo e insegurança.

Fábio estava instalando arquibancadas temporárias, exigidas pela Fifa, que serão removidas depois da Copa. Fábio trabalhava pela WDS, subcontratada pela Fast Engenharia para realizar a obra das arquibancadas temporárias. O estádio foi erguido sob responsabilidade da empreiteira Odebrecht

Mas parecia que nenhuma das grandes empresas prestava atenção em Fábio, trabalhador pequeno, vindo de uma casa humilde em Diadema. Ele já reclamara com o chefe, Chicão, que estava sem segurança na área em que trabalhava. Não havia barra de segurança para enganchar o seu cinto e segurá-lo se caísse. Reclamou com o chefe, reclamou com a mãe e a irmã, ainda inconformada com a falta de segurança.

Mas Fábio continuava trabalhando, alegre. Sonhava com o bônus que receberia. Continuava tocando seu funk, para tentar levantar o ânimo, enquanto levantava o estádio. Era apaixonado pelo trabalho, orgulhoso do time, corinthiano roxo.

Enquanto soldava peças, placas e promessas, no alto dos 21 metros das arquibancadas, se imaginava assistindo os jogos do time. Os operários estavam convidados a assistir ao jogo de abertura do estádio, entre Corinthians e Figueirense, em maio.

Em casa, Fábio não falava em outra coisa. Sua empolgação até ressoava nos azulejos quebrados, nos tijolos aparentes da casa em Diadema. “Ele iria levar o sobrinho, queria comprar o uniforme novo do Corinthians, o agasalho”, diz Sara. No sábado, dia 29 de março, ele sonhava alto com aquele dia do alto das arquibancadas.

Fábio Hamilton da Cruz, pouco antes do acidente na Arena Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal/Leandro Gonçalves)

Fábio Hamilton da Cruz, pouco antes do acidente na Arena Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal/Leandro Gonçalves)

Fábio Hamilton da Cruz, pouco antes do acidente na Arena Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal/Leandro Gonçalves)

Fábio Hamilton da Cruz, pouco antes do acidente na Arena Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal/Leandro Gonçalves)

Ele trabalhava ao lado de Mindinho, amigo de infância. Naquele sábado, estavam satisfeitos com o trabalho. Tiraram fotos, rindo, brincando, tranquilos. Parecia um sábado lindo de sol, com serviço tranquilo. Eram 10h30. O sol estava alto. O funk estava alto. Fábio estava alto. Alto, aos 15 metros, sem barra de segurança.

Uma chapa solta. Um passo em falso. Desequilibrou. Tentou se segurar. Tentou chamar pelo Mindinho. Caiu.

Ligaram para sua mãe, seu celular estava descarregado. Ligaram para a irmã, que estava sem sinal. Avisaram a avó, laconicamente: “o Fábio sofreu um acidente. Venha para o hospital”.

“Não deve ser nada sério, se não eles tinham avisado no telefone, né?”, disse Sara para sua mãe. Mãe e tio foram de carro ao hospital. Sara tentava se convencer: “quando vocês chegarem lá, ele vai estar rindo da cara de todo mundo, perguntando pra quê tanta preocupação”.

Era mais grave do que um pé quebrado. Sara e seu namorado Michel também decidiram ir ao Hospital Santa Marcelina. Ele havia entrado em cirurgia. “Mas se está fazendo uma cirurgia, é porque dá para ajudar, não é tão grave”, Sara continuava tentando se convencer.

Chegou ao hospital, que já estava tomado de repórteres. Com esforço, chegou ao andar cirúrgico. Todos seus familiares estavam lá. Todos quietos. Chorando. Ninguém queria contar o que acontecera.

Ele faleceu.

“Minha mãe ainda conseguiu ver ele”, disse Sara, com a voz desaparecendo. “Quando eu cheguei, ele já tava… minha mãe estava com ele, antes da cirurgia. Ele não conseguia responder. Minha mãe falava com ele, ele olhava, ainda estava consciente. Balançou a cabeça e tentou apertar a mão dela.”

A voz de Sara desaparece por um instante. Ela torce as mãos, olha para baixo, para as sandálias havaianas, para o sofá gasto onde estou sentada, onde Fábio costumava dormir. Dá bronca em sua filha, que resolveu ir de galochas para a escola.

Olha para o armário, cheio de fotos e memórias. Lá está uma foto de seus dois irmãos, Felipe e Fábio. Felipe falecera sete meses antes de Fábio. “Depois que Felipe morreu, meu irmão encontrou forças para viver no sobrinho. Ele adorava o moleque. Dizia que era o pai dele. Ia levá-lo para o estádio.”

“Estou órfã de irmão. Até tenho outros irmãos, mas do meu pai e da minha mãe, eram só esses dois. Tem até um irmão que eu não sei o nome, só o apelido, Macarrão”, diz Sara, encolhendo os ombros, sozinha, tentando desaparecer.

Pergunto se receberam algum pronunciamento da Fifa, da construtora do estádio, Odebrecht, da empresa responsável pelas arquibancadas, a Fast Engenharia, ou do Corinthians. Seu semblante muda totalmente. Ela ri alto, se apruma no sofá, cresce, brava. “Nada! Até que seria bom. A gente não espera que eles venham visitar, a casa é humilde. Mas nem uma carta!”

Mãe mostra fotos do operário morto em Itaquera (Foto: Amanda Previdelli/G1)

Mãe mostra fotos do operário morto em Itaquera (Foto: Amanda Previdelli/G1)

Fabio Hamilton da Cruz, 23 anos (Foto: Rafael Arbex/Estadão)

Fabio Hamilton da Cruz, 23 anos (Foto: Rafael Arbex/Estadão)

Grande comoção tomou seu velório, no Cemitério Municipal de Diadema. “Ele morreu dando sangue dele naquele estádio. Todo mundo sabia que ele era corinthiano roxo. Podiam ter mandado um telegrama. Alguém, sei lá. Do corinthias, dos patrocinadores, do povo corinthiano, do estádio. Mas não. É só mais um que morreu. Eles não fazem diferença. Ninguém se pronunciou. Nem vai. Com certeza.”

O caso começou a ser investigado pelo delegado Rafael Pavarina, do 24° Distrito Policial. A família pediu ao advogado Ademar Gomes auxiliá-los no processo.

A empresa Fast diz que o culpado pela queda foi o próprio Fábio “Não há um responsável que não seja ele próprio. O colaborador que, infelizmente, acabou se acidentando não seguiu as recomendações que ele conhecia”, afirmou o advogado David Rechulski, da Fast e WDS, em depoimento no 65º Distrito Policial, em Artur Alvim.

O Ministério do Trabalho discorda. Segundo o superintendente da pasta, Luiz Antonio Medeiros, o equipamento de segurança do estádio não era o suficiente. O talabarte usado por Fabio Hamilton da Cruz tinha um cabo de 1,5 m, mas ele trabalhava em uma plataforma com 2,5 m. Além disso, não havia fios longitudinais. “Não havia a segurança necessária”, disse ele.

Na noite anterior à sua morte, irmão e irmã conversaram muito. Fizeram planos de vida, riram até tarde. Agora, Sara acorda dia após dia. Como ela não tem emprego fixo, o sustento vinha do trabalho de seu irmão. “Cada dia que a gente vai passando a gente vai vivendo. Amanhã, como diz minha mãe, Deus proverá. Não tem planos. É acordar no outro dia e ver como a gente faz.”

Sara Hamilton da Cruz, com a foto de seu irmão na palma da mão (Foto: Karin Salomão)

Sara Hamilton da Cruz, com a foto de seu irmão na palma da mão (Foto: Karin Salomão)

 

 

 

PS: Esse perfil é um pouco diferente dos demais. É a visão de Sara, irmã de Fábio, sobre o que aconteceu em suas últimas semanas de vida. Essas são as informações relatadas por ela. Alguns pontos divergem dos relatos encontrados em jornais e revistas.

Outra versão sobre sua queda diz que, de acordo com os trabalhadores que estavam no canteiro neste sábado, Fábio tentava içar o gancho do mosquetão do cinto se segurança. Ele teria atirado o gancho, que não prendeu, e acabou se desequilibrando com o movimento do corpo. Como não estava preso, caiu. Fonte: Veja

Leia também esta matéria bonita sobre seu velório, em Diadema, feita pela jornalista Juliana Ravelli do Diário do Grande ABC.

PS2: Essa entrevista foi dada para mim e para a jornalista Reidun Samuelsen, do jornal norueguês Aftenposten. Leia a matéria dela aqui.

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